O drible de Casimiro na revolução audiovisual da Copa de 2026


07
julho
2026
Por Dr. Guilherme Del Bianco e Beatriz Anceschi

A Copa de 2026 consagrou a CazéTV como protagonista da transmissão esportiva, mas uma questão societária apontada pela FIFA ameaça o modelo que viabilizou esse avanço e coloca em xeque sua participação em 2030.

Toda grande partida tem um momento em que o jogo muda de lado. Às vezes, não é um gol, mas um drible inesperado que altera completamente a dinâmica da disputa. Na Copa do Mundo de 2026, essa virada aconteceu fora das quatro linhas: o campo da transmissão esportiva ganhou novos jogadores, novas regras e um público que já não assiste às partidas de futebol da mesma maneira.

Se antes a televisão aberta concentrava praticamente toda a atenção dos brasileiros nos jogos, hoje o cenário revela uma nova fragmentação do consumo audiovisual. O ambiente digital deixou de ser apenas um complemento da experiência esportiva para assumir papel de protagonista.

Nesse contexto, a CazéTV tornou-se o exemplo mais evidente de como a linguagem nativa da internet, aliada à agilidade das plataformas digitais, conseguiu desafiar gigantes históricos da radiodifusão.

Comandada por Casimiro Miguel e pela produtora LiveMode, a CazéTV consolidou-se como a primeira plataforma a transmitir, em ambiente digital, todas as 104 partidas da Copa do Mundo de 2026. O projeto, que nasceu das transmissões ao vivo na Twitch e no YouTube, soube aproveitar a conectividade característica da era digital. Acessível por smartphones, tablets, computadores e Smart TVs, democratizou o acesso gratuito às partidas em alta definição.

Vale lembrar que essa janela de oportunidade não surgiu do nada. Em 2020, durante a pandemia, a Globo iniciou uma disputa judicial contra a FIFA para renegociar o contrato firmado em 2013, pelo qual detinha todos os direitos das Copas do Mundo até 2030. Em 2022, as partes chegaram a um acordo, e a emissora renunciou à exclusividade no ambiente digital, permitindo que a LiveMode adquirisse os direitos do Mundial do Catar por apenas US$ 3 milhões e consolidasse a CazéTV no mercado das transmissões esportivas.

Não por acaso, o perfil desse novo público é predominantemente jovem, conectado e pouco identificado com a formalidade das transmissões tradicionais. Embora Globo e SBT ainda concentrem a maior parte da audiência total (aproximadamente 90% dos 136,4 milhões de espectadores), a CazéTV passou a liderar o engajamento nas plataformas digitais, triplicando seu alcance no YouTube em relação à Copa de 2022 e atingindo 64 milhões de espectadores apenas na fase de grupos.

Os picos de simultaneidade também quebraram recordes sucessivos: o duelo entre Brasil e Escócia chegou a 18,6 milhões de aparelhos conectados ao mesmo tempo, liderando o ranking da plataforma. Vale mencionar que a comparação direta com a TV aberta exige cautela: enquanto a Kantar IBOPE Media mede pontos de audiência em praças específicas por meio de metodologia auditada, o YouTube contabiliza acessos totais no Brasil e no mundo. São metodologias distintas que não permitem comparação direta entre os resultados.

Entretanto, por trás da emoção dos gols, dos memes e das reações ao vivo, existe uma estrutura jurídica sofisticada que torna tudo isso possível. Afinal, a imagem de uma partida não pertence simplesmente a quem a transmite. Trata-se de conteúdo audiovisual protegido pela Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/1998), cuja exploração econômica depende da titularidade dos direitos e dos contratos de licenciamento celebrados entre a FIFA e os veículos autorizados.

É justamente por essa razão que a FIFA centraliza a comercialização dos direitos de transmissão da Copa do Mundo, licenciando diferentes pacotes conforme a plataforma, o território e a modalidade de exibição. Esse chamado “fatiamento” dos direitos explica por que um mesmo campeonato pode ser transmitido por diferentes emissoras e plataformas, cada uma dentro dos limites previstos contratualmente.

Nesse modelo, a CazéTV adquiriu a exclusividade da transmissão digital gratuita no Brasil, enquanto a Globo manteve um pacote não exclusivo de 55 partidas. Um exemplo que chamou a atenção dos torcedores foi a chamada “Cortesia CazéTV”. Como não possuía os direitos de transmissão de todos os jogos, a Globo precisou celebrar um licenciamento específico para utilizar imagens e melhores momentos produzidos e exibidos pela plataforma digital. Mais do que uma curiosidade, esse arranjo contratual demonstra que, mesmo concorrendo pela audiência, os grandes players dependem juridicamente uns dos outros.

Essa segurança jurídica não é mero detalhe burocrático. Pelo contrário, constitui um dos pilares de sustentação da cadeia econômica do entretenimento esportivo.

Foi justamente essa inovação que trouxe à tona uma discussão menos visível ao público, mas decisiva para o futuro do projeto: sua estrutura societária.

A FIFA questiona o fato de a LiveMode atuar simultaneamente como compradora de direitos esportivos, vendedora desses direitos para outras emissoras e exibidora das partidas por meio da própria CazéTV. Na visão da entidade, esse acúmulo de funções pode configurar um potencial conflito de interesses, comprometendo a transparência das futuras negociações.

O quadro torna-se ainda mais sensível porque os fundos XP Investimentos e General Atlantic, que investiram R$ 2,6 bilhões nos direitos comerciais da FFU (Futebol Forte União), também aportaram capital na LiveMode meses depois. Essa sobreposição de interesses é justamente o aspecto que a FIFA avalia como potencialmente problemático.

A ameaça que pesa sobre a CazéTV, portanto, não decorre de qualquer irregularidade na transmissão em si, mas da arquitetura societária que sustenta o negócio. Trata-se de uma discussão sobre governança corporativa, independência negocial e transparência na comercialização dos direitos esportivos, ou seja, uma questão de estrutura, e não de conduta.

Nesse cenário, a Copa do Mundo de 2026 ficará marcada como o torneio em que a CazéTV balançou as redes e reescreveu as regras da transmissão esportiva no Brasil. No campo jurídico, porém, a FIFA avalia se a estrutura societária por trás do canal poderá representar um impedimento para sua participação na Copa de 2030. Afinal, o drible de Casimiro revolucionou a forma de transmitir futebol, mas será que ele também será suficiente para mantê-lo em campo na próxima Copa do Mundo?


Referências

Globo e SBT são responsáveis por 90% do público que vê Copa do Mundo, diz Ibope. Folha de S.Paulo (F5). Disponível em: https://f5.folha.uol.com.br/colunistas/outro-canal/2026/06/globo-e-sbt-sao-responsaveis-por-90-do-publico-que-ve-copa-do-mundo-diz-ibope.shtml.
CazéTV supera Globo e SBT e atinge mais de 16 milhões de pessoas na Copa. Terra. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/tv/caze-tv-supera-globo-e-sbt-e-atinge-mais-de-16-milhoes-de-pessoas-na-copa,e5da98a9fd1100855c6878ea1ea1a28fd20v52md.html.
Como a CazéTV enfrentou a Globo e ficou com todos os jogos da Copa de 2026. UOL Esporte. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2026/06/23/como-a-cazetv-superou-a-globo-e-conquistou-a-copa-do-mundo-de-2026.htm.
Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 (Lei de Direitos Autorais). Planalto. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9610.htm.
Como funciona a compra e venda dos direitos de transmissão da Copa de 2026. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sGFo65rKEmg.
Como a CazéTV superou a Globo e ficou com todos os jogos da Copa de 2026. UOL Esporte. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2026/06/23/como-a-cazetv-superou-a-globo-e-conquistou-a-copa-do-mundo-de-2026.ghtm.
FIFA vê conflito de interesses e cria barreira para Copa do Mundo de 2030 na CazéTV. Notícias da TV (UOL). Disponível em: https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/daniel-castro/fifa-ve-conflito-de-interesses-e-cria-barreira-para-copa-do-mundo-de-2030-na-cazetv-153089