O Impacto do Conflito Irã–EUA na Economia Brasileira.


10
março
2026
Por Leandro César de Melo

A economia brasileira abriu o mês de março de 2026 em estado de alerta devido à instabilidade no exterior. O recente conflito entre Irã e Estados Unidos ascendeu um alerta global, elevando o preço do petróleo em cerca de 13% — atingindo US$82,37 logo no início do mês. Para o Brasil, esse cenário é um jogo de contrastes: se por um lado o aumento do óleo gera receitas extras com royalties e dividendos, por outro, pressiona a inflação doméstica e ameaça o ritmo de corte dos juros. Entenda, a seguir, como essa instabilidade impacta o mercado interno e o que esperar da política econômica nos próximos meses.

Se o petróleo ficar em cerca de US$80 até o fim do ano, estimativas de economistas indicam elevação de cerca de 0,2–0,3 ponto percentual no IPCA de 2026. Esse efeito viria via combustíveis e custos de produção. Caso o conflito se prolongue e haja bloqueio no Estreito de Ormuz, o preço do petróleo poderia ultrapassar US$ 100, impulsionando a inflação global – o que acabaria refletindo no Brasil. A curto prazo, isso comprime um pouco a renda real do consumidor, mas o impacto líquido no PIB ainda tende a ser levemente positivo devido ao maior faturamento das exportadoras.

Para o início de 2026 o Banco Central vinha sinalizando corte da Selic (a taxa básica) de 15% para 14,5%, mas o cenário de incerteza pode afetar esse ritmo. Por enquanto, analistas acreditam que o Copom não alterará planos imediatos, mas pode encerrar o ciclo de cortes antecipadamente se o conflito persistir. Como explica Jonathas Goulart (economista da Firjan), “um cenário de guerra sempre é pior… o que todo mundo tende a fazer é ser um pouco mais cauteloso”.

A escalada da guerra gerou aversão global ao risco. Investidores giraram seus recursos para ativos de proteção, fazendo a Bolsa brasileira recuar e o dólar subir. Como observa Otávio Araújo (Zero Markets), “vemos um movimento clássico de fuga para ativos considerados mais seguros”. Setores ligados ao consumo interno e crédito (bancos, varejo, construção) tendem a sofrer mais. Já ações ligadas a exportação de petróleo ou commodities agrícolas têm quedas menores – em alguns casos, até sobem levemente. Em resumo, a Bolsa “surfou” no fluxo estrangeiro para emergentes no início do ano, mas agora sofre a suspensão dessa maré.

Com a busca por segurança, o real enfraqueceu diante do dólar. A perspectiva de juros domésticos estáveis e a incerteza sobre inflação futura também pesam contra a moeda. Analistas previam que o dólar abrisse perto de R$5,40 em 2/3 março, contra R$5,15 do final de fevereiro. O impacto cambial poderia ser parcialmente mitigado pelo superávit comercial em petróleo (o Brasil é produtor) e pelo ingresso de capitais estrangeiros em busca de segurança no país. De fato, alguns investidores consideram o Brasil (pacífico e estável) um porto seguro relativo na América Latina.

Conflitos prolongados criam insegurança para investidores estrangeiros. Fundos soberanos do Oriente Médio participam do capital brasileiro; eles e demais investidores tendem a revisar riscos antes de novos aportes. Segundo Rafael Germano, RI da Oby Capital: “O atual conflito no Oriente Médio é mais um episódio da história recente que consolida o movimento mundial de fragmentação e desglobalização. Além dos impactos econômicos vistos nos ativos (moedas, comodities, ações e títulos), são esperadas mudanças em cadeias de produção e prováveis choques inflacionários. Em um cenário de não resolução célere da situação, não seria estranho vivenciar um mundo com possibilidades de preços estruturalmente mais altos.”

Em resumo, apesar do Brasil estar geograficamente longe do epicentro do conflito, a alta do petróleo e a volatilidade mundial já se refletem internamente. A inflação é o maior temor, mas receitas fiscais e de exportação podem compensar parcialmente esse choque. No curto prazo a Bolsa cai e o dólar sobe, e o Banco Central adota postura cautelosa. A evolução final dependerá da duração do conflito: se for breve, os efeitos se dissipam; se for longo, as pressões inflacionárias e a instabilidade financeira podem se prolongar por meses.